No dia 06 de novembro ocorreu o concurso para Professor Titular da Disciplina de ORL da USP, que indicou o otorrinolaringologista Ricardo Bento para o cargo. A seguir, uma entrevista, onde ele fala de suas principais metas e o que pensa sobre o futuro da especialidade.

Site ABORL - Quais os seus objetivos e principais metas à frente da Otorrinolaringologia da USP?

Ricardo Bento - Valorização do nosso corpo clínico e docentes e investimento em sua formação e evolução profissional para melhor podermos cumprir os objetivos de nossa instituição de ensino, pesquisa e assistência à comunidade. Para isso, vou cada vez mais institucionalizar o corpo clínico, valorizando aqueles que quiserem se dedicar mais no serviço. Em resumo, que o Serviço do HC seja seu principal objetivo e não seu objetivo secundário, isto é, usar o HC para prestígio fora da Instituição. A outra meta é tornar realidade e executar o Instituto de Otorrinolaringologia e Oftalmologia. Funcionamos em um só Departamento Oftalmo e Otorrino, e temos muitas coisas operacionais em comum (cirurgias de baixa e média complexidade), lucratividade em nossos serviços. O Instituto será dentro do complexo do HCFMUSP, na Av. Rebouças, já contamos com o terreno e estamos fazendo o projeto arquitetônico. Temos a aprovação do superintendente do HCFMUSP e do Diretor da Faculdade e parte do dinheiro para iniciar as obras.

Site ABORL - Como o senhor enxerga hoje a Otorrinolaringologia mundial e onde está inserida, na sua opinião, a Otorrinolaringologia Brasileira.

Ricardo Bento - Apesar de ser uma pergunta filosófica e ampla, em poucas palavras, a ORL é uma especialidade muito rica em novos desenvolvimentos em todas as suas áreas de atuação, tanto que é uma das mais procuradas em todo o mundo pelos formandos em Medicina. Oferece uma ampla gama de oportunidades, desde atenção básica até alta complexidade e, principalmente, envolve 3 dos 5 sentidos, audição, gustação e olfação, bem como é fundamental na comunicação humana com a voz e audição. Para qualidade de vida, que é um dos objetivos deste século que entramos, uma vez que nos tornamos mais longevos, a especialidade é fundamental. A ORL brasileira tem muitas carências, principalmente a concentração em grandes centros, a formação profissional inadequada (poucos anos de residência e poucos locais de formação) se compararmos com o resto do mundo em desenvolvimento e desenvolvido. Carências estruturais do serviço público em nossa área. Por outro lado, temos profissionais de alto gabarito em nossas escolas médicas e instituições privadas que podem reverter aos poucos este quadro. Em maio de 2009, teremos no Brasil o evento internacional mais importante, o Congresso Mundial de Otorrinolaringologia, que há várias décadas se tentava trazer para o Brasil. Para este evento, é importante a participação de todos e principalmente a união de todos em torno da ABORL-CCF que deve ser a centralizadora deste evento. Será a chance da consolidação e inserção definitiva do Brasil na especialidade.

Site ABORL - Como coordenador da Comissão de Políticas Públicas da ABORL-CCF, queria que o senhor fizesse um panorama da relação da entidade com o governo federal e a atual situação verificada no Ministério da Saúde, como os cortes de verba que prejudicam a Otorrinolaringologia e a Saúde em geral.

Ricardo Bento - Esta Comissão, criada pela atual Diretoria da ABORL-CCF, é extremamente importante e mostra a visão do Richard e dos demais membros de sua diretoria. Pelas minhas atividades de Professor Titular de um serviço grande como a USP, não estava em meus planos participar diretamente na Diretoria da ABORL-CCF, porém o que me seduziu no convite do Richard, foi o fato de que nossa especialidade historicamente nunca teve uma atuação no sistema público de saúde. Infelizmente, não era uma preocupação das diretorias passadas. Sabemos que hoje 85% da população brasileira depende diretamente do SUS para seus tratamentos médicos. Isto significa em torno de 150 milhões de pessoas. Quando tratamos de alta complexidade, este índice sobe ainda mais, pois a saúde privada se esquiva dos tratamentos complexos e caros. Como trabalho em hospital público, esta atuação me atraiu e temos que começar a reverter este quadro. Os novos especialistas terão mais campo de trabalho e nossa especialidade se imporá mais sob pena de perdemos áreas de nossa especialidade para outros. A questão de verbas é contornável; temos que atuar na questão da inserção de nossa especialidade nas doenças do sono no SUS, no Programa Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, do qual fui um dos idealizadores e que se trata de um dos programas mais avançados de saúde auditiva do mundo, que não podemos deixar que o atual Ministério retroaja. Enfim, estamos em constante contato com o Ministério da Saúde e teremos em Brasília o ano que vem, logo antes do Congresso Triológico, o I Fórum de Políticas Públicas em ORL, no qual propostas serão discutidas e encaminhadas ao Ministério.

Site ABORL - Durante o Congresso Brasileiro, uma de suas apresentações será sobre o avanço nos Implantes Cocleares. Gostaria que o senhor falasse um pouco da apresentação e da nova cirurgia de implantes de tronco, cirurgia pioneira que está sendo realizada no Hospital das Clínicas.

Ricardo Bento - O implante coclear é uma realidade e seus resultados surpreendentes, inserindo os surdos na sociedade e dando a eles a possibilidade de melhorar sua comunicação fundamental para a vida social e profissional dos nossos dias. O procedimento tem acompanhado o desenvolvimento da ciência eletrônica e da computação. Suas indicações têm crescido dia a dia e atualmente já se tem implantado pessoas com surdez moderada com os chamados implantes híbridos em que se usam eletrodos curtos no giro basal da cóclea preservando o ápice coclear e, portanto, a região das freqüências agudas que são amplificadas por um aparelho acústico convencional. Quanto aos implantes de tronco cerebral, se tratam de aparelhos semelhantes aos implantes cocleares (a unidade externa e interna são iguais), mas o que muda é o eletrodo que é colocado no núcleo do nervo cocleo-vestibular no tronco cerebral. As indicações desta técnica são para casos em que os implantes cocleares não têm indicação em que o nervo auditivo está comprometido ou a cóclea não tem condições de receber um eletrodo convencional - (neurofibromatose tipo II; neuropatias; malformações cocleares e neurais; ossificação total da cóclea entre outras). Os resultados estão sendo extremamente promissores para estes pacientes que antes não tinham alternativas.